Por que mudar de uma atividade para outra pode ser difícil?
“Está na hora de guardar os brinquedos.”
“Agora vamos tomar banho.”
“Terminou o recreio, precisamos voltar para a sala.”
Para muitos adultos, essas mudanças parecem fazer parte naturalmente da rotina. Mas, para algumas crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), interromper uma atividade e começar outra pode ser um momento difícil.
A criança pode chorar, recusar-se a sair do lugar, demonstrar irritação, tentar continuar a atividade ou precisar de mais tempo para compreender o que está acontecendo.
Isso nem sempre significa que ela simplesmente “não quer obedecer”.
Em algumas situações, o desafio está justamente em encerrar uma experiência, compreender o que acontecerá depois e reorganizar-se para a próxima atividade.
Com previsibilidade, comunicação clara e apoio visual, podemos tornar esses momentos mais compreensíveis e acolhedores.
O que são transições?
Transição é o momento em que passamos de uma atividade, ambiente ou situação para outra.
Existem também transições maiores, como casa → escola, sala de aula → passeio e férias → retorno às aulas.
Quanto menos previsível for uma mudança, mais difícil ela poderá ser para uma criança que depende de organização e antecipação para compreender sua rotina.
Por que algumas transições são difíceis?
Imagine estar concentrado em algo de que você gosta e, de repente, alguém simplesmente retirar aquilo e pedir que você faça outra coisa.
Agora imagine não saber exatamente quando a atividade terminará, por que precisa terminar, o que acontecerá depois, quanto tempo falta ou quando poderá fazer aquela atividade novamente.
A incerteza pode gerar desconforto. Antecipar a mudança oferece uma referência compreensível.
Antecipe o que acontecerá
Em vez de interromper uma atividade repentinamente, avise:
- “Daqui a cinco minutos vamos guardar os brinquedos.”
- “Faltam dois minutos.”
- “Agora terminamos. Depois de guardar, vamos lanchar.”
Quando apropriado, um relógio visual, temporizador ou cartão pode complementar essa comunicação. O objetivo não é criar rigidez, mas oferecer uma referência compreensível.
Torne a sequência concreta
Para algumas crianças, ouvir uma instrução pode não ser suficiente. Um apoio visual pode mostrar que a atividade atual termina e, ao mesmo tempo, revelar o que acontecerá em seguida.
Use frases curtas e consistentes
Durante uma transição, excesso de explicações pode dificultar a compreensão. Experimente:
“Primeiro guardar. Depois brincar lá fora.”
“Primeiro atividade. Depois descanso.”
“Terminou o recreio. Agora sala.”
A linguagem pode ser adaptada à idade, à comunicação e às necessidades de cada pessoa.
Muitas mudanças em um único período
Para algumas crianças, cada mudança exige um novo esforço de organização. Professores podem utilizar:
- Quadro visual da rotina
- Avisos antecipados
- Cartões “agora” e “depois”
- Temporizadores
- Pistas visuais
- Objetos ou símbolos da próxima atividade
- Pequenas pausas quando necessárias
Uma referência visual para consultar
A criança não precisa depender apenas das instruções verbais do adulto. Ela passa a ter uma referência visual para consultar, o que também pode favorecer a autonomia.
Quando a mudança não pode ser prevista
Nem toda rotina acontecerá exatamente como planejamos. A professora pode faltar, pode chover no horário do parque, uma consulta pode atrasar ou uma atividade pode ser cancelada.
Além de criar previsibilidade, é importante ensinar gradualmente que mudanças podem acontecer.
Mostre visualmente qual será a nova sequência. Assim, a criança não recebe apenas a informação de que algo foi cancelado — ela também descobre o que acontecerá no lugar.
Escolha uma transição difícil
Por exemplo: brincadeira → banho. Durante uma semana:
- Avise alguns minutos antes
- Mostre a próxima atividade
- Utilize sempre uma frase curta
- Dê tempo para a criança processar a informação
- Reconheça quando ela conseguir realizar a transição
Observe o que funciona melhor para essa criança.
Firmeza acompanhada de acolhimento
Em vez de dizer apenas: “Vamos! Eu já falei várias vezes!”, experimente aproximar-se, mostrar o apoio visual e dizer:
“Eu sei que você estava gostando. Agora terminou. Vamos olhar o que vem depois?”
A firmeza continua existindo, mas vem acompanhada de informação, previsibilidade e acolhimento.
Observe uma transição por dia
Registre:
- O que aconteceu antes?
- A criança foi avisada?
- Havia apoio visual?
- O que facilitou?
- O que dificultou?
- Quanto apoio foi necessário?
Depois de alguns dias, você poderá começar a perceber padrões importantes.
Quadro Visual — “Agora e Depois”
Material em PDF A4 com quadro reutilizável e cartões recortáveis para apoiar transições em casa, na escola ou em atendimentos.
- Quadro “Agora e Depois”
- 10 cartões de atividades
- 5 cartões extras para mudanças e pausas
- Pronto para imprimir, recortar e plastificar
Como utilizar o quadro
Coloque apenas dois cartões por vez: AGORA: Brincar e DEPOIS: Banho. Quando a primeira atividade terminar, retire o cartão e monte a próxima sequência.
Para crianças maiores, adolescentes ou adultos que utilizem apoio visual, as ilustrações podem ser substituídas por pictogramas discretos, fotografias ou palavras.
Aprender a lidar com mudanças é um processo.
Não precisamos retirar todo apoio de uma vez. À medida que a pessoa compreende melhor a rotina e desenvolve autonomia, os recursos podem ser ajustados.
No 365 Dias Pais e Filhos, você encontra reflexões e propostas práticas voltadas ao fortalecimento dos vínculos familiares e à construção de uma rotina mais acolhedora.
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“Quando mostramos à criança o que termina e o que começa, transformamos a incerteza em um caminho que ela pode compreender.”
E-book 365 Dias Pais e Filhos
Reflexões e atividades diárias para fortalecer os vínculos familiares.
